Graça significa que nada do que fazemos
na vida nos exclui do amor de Deus. Significa que ninguém está excluído da
redenção, nenhuma mancha humana está excluída da purificação. Vivemos num mundo
que julga as pessoas pelo comportamento e exige que criminosos, devedores e os
que são moralmente fracassados arquem com as conseqüências de seus atos. Até a
própria igreja acha difícil perdoar quem falha.
A graça é irracional, incorreta, injusta
e só faz sentido se eu acreditar num outro mundo governado por um Deus
misericordioso que sempre concede uma nova oportunidade. Maravilhosa Graça, um
hino extraordinário que, há pouco tempo, ocupou os primeiros lugares nas
paradas da música popular exibe a promessa de que Deus julga as pessoas não por
aquilo que elas foram, mas pelo que elas poderiam ser, não pelo passado delas,
mas pelo seu futuro. John Newton, um rude e grosseiro traficante de escravos, “um
miserável como eu”, escreveu aquele hino depois de ser transformado pelo poder da
maravilhosa graça.
Ao ver a graça em ação, o mundo faz
silêncio. Nelson Mandela ensinou-nos uma lição sobre a graça quando, após
deixar a prisão onde passou 27 anos para ser eleito presidente da África do
Sul, pediu a seu carcereiro que se juntasse a ele no palanque da cerimônia de
posse. Em seguida, nomeou o bispo Desmond Tutu para chefiar um conselho oficial
do governo com o nome assustador de Comissão da Verdade e Reconciliação. Mandela
procurou dissipar o padrão natural de vingança que vira em tantos países, onde
uma raça ou tribo oprimida tomara de outra o controle político.
Durante os dois anos e meio seguintes, a
África do Sul ouviu relatos de atrocidades que saíram das audiências CVR. As regras
eram simples: se um policial ou um oficial militar branco enfrentasse
voluntariamente seus acusadores, confessasse seu crime e reconhecesse
completamente sua culpa, ele não poderia ser julgado e punido por aquele crime.
Defensores da linha dura criticaram a óbvia injustiça de deixar criminosos em
liberdade, mas Mandela insistiu que o país precisava de cura, mais até do que
de justiça.
Numa das audiências da CVR, um policial
chamado Van de Brock relatou um incidente em que ele e outros oficiais mataram
a tiros um rapaz de dezoito anos e queimaram seu corpo. Oito anos depois, Van
de Brock voltou à mesma casa e pegou o pai do rapaz. A mulher foi forçada a
olhar enquanto os policiais amarraram seu marido sobre um monte de lenha,
derramaram gasolina sobre o corpo dele e atearam-lhe fogo.
O tribunal ficou em silêncio quando a
mulher idosa que havia perdido primeiro o filho e depois o marido teve a
oportunidade de responder. “O que a senhora deseja do sr. Van de Brock?”
perguntou o juiz. Ela disse que queria que Van de Brock fosse ao local onde
haviam queimado o corpo de seu marido e recolhesse as cinzas, para que ela
pudesse dar a ele um sepultamento decente. Cabisbaixo, o policial acenou
concordando.
Depois ela acrescentou outro pedido: “O sr.
Van de Brock tirou-me toda a família, e eu ainda tenho muito amor para dar. Duas
vezes por mês, eu gostaria que ele viesse até o gueto e passasse o dia comigo,
de modo que eu possa ser uma mãe para ele. E gostaria que o sr. Van de Brock
soubesse que ele foi perdoado por Deus, e que eu também o perdôo. Eu gostaria
de abraçá-lo, para que ele saiba que meu perdão é verdadeiro.”
Espontaneamente, alguns dos presentes
começaram a cantar o hino Maravilhosa Graça, quando a senhora idosa se
encaminhou para o banco das testemunhas, mas Van de Brock não ouviu o hino. Ele
desmaiou arrasado.
Não se fez justiça naquele dia na África
do Sul, como não se fez no país inteiro durante meses de dolorosos processos
CVR. Algo além da justiça aconteceu. “Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam
o mal com o bem”, disse Paulo. Nelson Mandela e Desmond Tutu entenderam que,
quando o mal está feito, uma só resposta pode vencê-lo. A vingança perpetua o
mal. A justiça o pune. O mal é vencido pelo bem se a parte ofendida o absorver,
recusando-se a permitir que ele avance ainda mais. E esse é o modelo de graça
do outro mundo que Jesus mostrou em sua vida e morte.
Texto extraído do devocional “Sinais da
Graça”- de Philip Yancey – 2011, p. 266 e 267.


Excelente texto Michele! Philip Yancey, realmente, é um homem inspirado por Deus pra chegar tão fundo no coração humano.
ResponderExcluirMaravilhoso!
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